"[...] Sou forçado a sair do natural retraimento em que vivo para vir safar o meu nome da alternativa desonrosa em que o colocou o crítico [Felinto de Almeida] do Estado [de São Paulo]. Sei que o meu colega [Benedicto Calixto] não é um mestre na nobre e difícil arte da pintura, assim como eu não sou, nem no Brasil ninguém o é, e mesmo na Europa pouquíssimos o são, mas daí a negar-se talento e a dizer que os seus últimos trabalhos expostos são verdadeiras 'botas' [pequenas pinturas que o artista faz rapidamente, apenas para registro de uma cena] há uma severidade excessiva que descamba para a injustiça. Se me é permitido julgar pela minha própria experiência, direi que quando parti para a Europa a estudar pintura já eu tinha o curso da nossa Academia de Belas-Artes; pois estive em Paris seis anos aprendendo com os melhores mestres, e de lá voltei ainda muito ignorante nos altos segredos da Arte e encontrando dificuldades extraordinárias em interpretar e reproduzir a natureza brasileira. [...] E ainda que tenha o prazer de louvar no meu talentoso colega a orientação que ele dá aos seus estudos, procurando observar, sentir, inspirar-se no natural e reproduzi-lo; embora às vezes parece que se submete à necessidade para um artista pobre de armar a efeito perante o mau gosto muitas vezes intolerável do público que compra as obras de arte e faz viverem os artistas. [...] Tudo é relativo no julgamento das obras de arte. [...] Não é meu colega, não somos nós que nos inspiramos nas oleografias estrangeiras para temperar o colorido das nossas palhetas; é, pelo contrário, nosso povo inculto ainda pelas finezas d'arte que nos pede, que nos compra, que de nós exige, oleografias. O brasileiro gosta das cores vivas: basta olharmos para a pintura externa dos nossos prédios, para os motivos da decoração interior das casas, para as espetaculosas toaletes das senhoras: em tudo domina o tom de oleografia, o gosto pelas cores fortes, o desdém pelos tons médios. Parece que não estão os nossos nervos óticos ainda suficientemente educados para sentirem a impressão delicada dos tons neutros. [...] Eis porque o meu colega Calixto tende naturalmente a afeiçoar as suas obras ao gosto do público. Fazer arte pela arte é dom para os diletantes ou para os artistas ricos; os artistas pobres precisam viver e para viver precisam vender as suas telas; quem as compra? O público; De que gosta o público? De oleografias; pois demos-lhes oleografias! Isso parece lógico, se não perante a religião da arte, pelo menos perante a inexorabilidade do estômago; principalmente, quando, como no caso do meu colega, a gente sente a fome pelo estômago dos filhos. Eu, permitam-me trazer-me como exemplo, pinto retratos que teria vexame de mostrar a um colega conhecedor do ofício; mas que, entretanto, agradam a quem m'os paga, e não agradariam se não fossem um tanto oleografados, ao gosto do freguês. O freguês! Aí está quem carrega de tintas vivas as paletas do pintor brasileiro! Se lhe dermos um quadro como obtivemos da natureza, em toda sinceridade, simples, de tons neutros, o freguês não quer, e ficaríamos nós de estômago vazio a ver navios e as nossas telas pelas paredes do atelier, entregues a nossa exclusiva admiração e às teias de aranha. [...] É esta, desgraçadamente, a triste contingência dos artistas brasileiros" (fragmento do artigo escrito por Almeida Júnior publicados no Correio Paulistano de 03/08/1890, com o objetivo reparar informações publicadas pelo crítico Felinto de Almeida em O Estado de São Paulo, onde as opiniões de Almeida Júnior foram utilizadas para criticar as obras de seu colega Benedicto Calixto).