Em dezembro de 1917, a pintora Anita Malfatti fez sua segunda exposição (a primeira fora em 1914), desta vez apresentando 53 trabalhos (óleos, gravuras, aquarelas). Nessa individual, "[...] apresentada tão logo chegara da Alemanha, Anita apresenta 53 trabalhos, muitos deles - como O Farol, O Japonês e O Homem Amarelo - executados nos Estados Unidos, onde Anita também estudara. São Paulo acolheu bem a mostra, comprou quadros, parecia entendê-los. Até que Monteiro Lobato, um dos freqüentadores da garçonnière que Oswald de Andrade mantinha na Rua Líbero Badaró 67, publicou o artigo A Propósito da Exposição Malfatti (mais tarde, Paranóia ou Mistificação?). Apesar de provar, no ano seguinte, com os contos de Urupês, que era uma autêntica voz moderna, antecipando o movimento antropofágico, Lobato alimentava outros ideais estéticos e achava a arte moderna uma coisa de louco. 'A única diferença reside em que nos manicômios esta arte é sincera, produto lógico de cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas, zabumbadas pela imprensa [...], não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo mistificação pura". Os ricos de São Paulo ouviram Lobato. Retiraram o apoio à mostra, devolveram quadros comprados, impediram que seus filhos estudassem com a pintora. Anita virou causa e, para defendê-la, ergueram-se as vozes que fariam a Semana. Mas a artista se recolheu e nunca mais - nunca mais! - demonstraria força expressiva. A ousadia da 'protomártir' lhe custou a carreira. Para Mário de Andrade, a exposição de 1917 foi a revelação do novo: 'Foi ela, foram seus quadros, que nos deram uma primeira consciência de revolta e de coletividade em luta pela modernização das artes brasileiras'. Muita água passaria sob a ponte até fevereiro de 1922, mas a revolta estava lançada. Nomes e obras foram revelados, como a do escultor Brecheret, que trabalhava numa sala do Palácio das Indústrias, ou Menotti del Picchia, com o livro de poesia nacionalista Juca Mulato. Em 1922, na Semana, Anita voltaria a expor os mesmos quadros de 1917" (Federico Mengozzi, na revista Época).